quinta-feira, 8 de março de 2012

Pausa para uma homenagem às mulheres

Mulheres... Se a gente prestar atenção, cada uma delas que passa por nossas vidas leva um pouquinho da gente. A mãe (Célia) é a primeira que amamos. Só ela toma a maior parte do nosso coração por um bom tempo de nossas vidas. Depois de um tempo aparece a nossa segunda mãe, a irmã mais velha (Claudia). Ela cuida da gente como se fosse filho, e com isso arranca mais um pedação. Sem contar as tias, primas, amigas... De repente, vem o primeiro amor, como se fosse um furacão: gigante, lindo e destruidor!!! Ali começa o aprendizado do homem... e cada uma das que vem na sequência vão levando outros pedacinhos, deixando a gente cada vez mais fracionado... Até que vem a nossa alma gêmea, o amor de nossas vidas (Amanda). Aí ferrou de vez, porque esse amor restaura o seu coração e ele volta a ser um inteiro... Só pra ser entregue na mão dela, de bandeja! ai, ai, ai... e no meio disso tudo, dessa matemática toda, percebi o mais importante: na minha bagagem emocional reparei, num cantinho escondido, um monte de pedacinhos de outros corações. Percebi que a cada pedaço do meu coração que era tirado, outro igual ou maior era deixado no lugar! Como não tinha visto isso antes???
Só então pude entender o bem que a mulher faz a nós homens. Todas, sem exceção, deixaram um pedaço comigo e me fizeram o homem que sou hoje. Mãe, irmã, tia, primas, cunhada, sobrinha, amigas, ficantes, namoradas... Todas me trouxeram a este momento: o grande momento em que estou prestes a entregar o meu coração todinho pra uma só pessoa! A melhor parte é que vou receber um coração em troca! Tão grande ou maior que o meu! E isso me faz querer ser uma pessoa melhor, um homem melhor. Um filho, irmão, sobrinho, primo, cunhado, tio, amigo, namorado, noivo, marido... MELHOR!

A todos as mulheres que fazem ou fizeram parte da minha vida: Feliz Dia das Mulheres.

Ao meu grande amor... Amanda, te amo! Daqui até a Lua! ;)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Capítulo 4 - Parte 2 - O Conselho dos Anjos

-   Camael, envie mensageiros a todos os nossos contatos nas nações informando a situação. Faça com que toda a informação que recebemos hoje chegue até eles. Peça para que eles fiquem de olhos bem abertos.
-   Sem problemas Metatron. As ações do inimigo não mais passarão despercebidas.
   E Metatron continuou – Miguel e Gabriel, espalhem seus anjos e arcanjos por todas as dimensões. Procurem sinais, cacem nossos inimigos mas não os matem. Lembrem-se, precisamos de informação!
-   Mas e a segurança da dimensão celestial? – Perguntou Gabriel. Os arcanjos sempre tiveram essa incumbência.
-   Não se preocupe Gabriel, Meus serafins irão cuidar desta tarefa. Mas você sabe que enquanto nosso Pai estiver conosco, esta dimensão não pode ser invadida pelo inimigo.
-   Sem problemas Metatron, assim será feito então.
-   Gabriel, com exceção dos anjos da guarda, envie todos os anjos para esta missão. Tenho um pressentimento ruim a respeito disso.
   Gríffon em sua cadeira assistia a tudo calado, apenas tentando imaginar qual seria o seu papel em toda aquela movimentação. Enquanto Metatron continuava a dar instruções, o capitão se lembrou de algo que quase ia passando despercebido. Olhou para Rafael e, assim que seus olhos se cruzaram, foi como se o conselheiro tivesse lido seus pensamentos.
-   Um momento Metatron, por favor. Parece que nosso convidado deseja saber o que aconteceu com o Urumann morto, estou certo?
   Gríffon se sentiu envergonhado por atrapalhar as deliberações, mas a curiosidade era maior. Seu braço ainda se lembrava da forte energia, como um choque, que passou através da arma para o seu corpo. Um misto de agonia e desespero. Algo que faria qualquer guerreiro tremer. Menos ele.
-   Desculpe, não quis interromper. Mas percebi que é uma informação importante, especialmente para meus guerreiros. Eles precisam saber o que estão enfrentando. – neste momento, Gríffon esqueceu totalmente das formalidades e pensou somente em seus guerreiros. Sabia que podia encarar novamente qualquer Urumann, inclusive Devlin. Sentia que era diferente e aquilo lhe dava mais força. Mas seus guerreiros mesmo sendo bravos e valentes, pareciam não compartilhar da mesma força.
-   Claro meu amigo, muito importante é a informação. Vamos direto ao ponto. Os anjos negros não são como nós. Nós fomos criados da luz e do amor divino. Os Urumann foram criados a partir de almas corrompidas. – explicou pacientemente Rafael.
-   Sim, e por isso são espíritos como nós. 
-   Exato, porém o que você destruiu não foi um espírito. É um pouco complicado mas funciona mais ou menos assim: quando um ser humano morre, sua alma se separa do corpo, e este é um processo traumático. Depois disso ela passa pelo purgatório e lá é feito seu julgamento, que irá definir para onde deve ir.
-    Céu ou inferno? – indagou o capitão.
-    Basicamente sim. Seus guerreiros conseguem lutar e voltar pois suas almas não se separam totalmente do corpo. Uma fina linha de luz, quase invisível ao olho humano mantém a conexão com o corpo. Essa linha só pode ser quebrada quando o corpo padece ou seu espírito é destruído. E com isso claro, seu corpo morre também. – Rafael fez uma pausa, sentindo que uma pergunta estava vindo.
-   Sim mas... isso ainda não explica o que aconteceu...
-   Calma rapaz, estou chegando lá. Lúcifer encontrou, anos atrás, uma forma de unir uma alma desencarnada a um corpo ainda vivo.
-   Vivo? Mas e a alma que já estava no corpo?
-   Esta é a grande chave do poder deles. Os Urumann conseguem manter, em um só corpo, duas almas ou dois espíritos. Pode-se dizer que é um tipo de possessão demoníaca, mas não do tipo que pode ser resolvida com um exorcismo, por exemplo. É uma ligação bem mais profunda que isso, e requer o consentimento da alma dominada.
-   A pessoa possuída precisa desejar a possessão? Quem aceitaria isso?
-   Infelizmente alguns. – admitiu Rafael. – uns por pura maldade, outros são iludidos. Não sabemos ainda como ele faz isso. Mas o que sabemos é que a fonte de aumento do poder deles, também é sua fraqueza. Quando fazem isso, os Urumann ficam mais vulneráveis às armas angelicais. Por isso sua lança e as adagas funcionaram tão bem contra eles.
-   Mas o que acontece com a outra alma? – perguntou Gríffon. Sentiu pelo olhar dos presentes, que a pergunta estava respondido. Quem terminou a explicação, após um breve silêncio, foi Haiael.
-   É destruída também Gríffon...
   Sentindo o clima pesado, Metatron decidiu encerrar por ali aquela conversa.
-   Bom, já que as informações necessárias foram passadas, devo agora anunciar o outro motivo de sua presença neste conselho. Temos uma missão muito importante e preciso que alguém de confiança cuide disso. Esta pessoa é você, capitão. Infelizmente quase todos os anjos estarão a partir de agora em missão, portanto você irá acompanhado somente de um guerreiro de sua ordem. Haiael irá escolher seu acompanhante e o informará.
-   Qual a natureza desta missão, senhor?
-   Diplomática, por mais estranho que isso pareça. Temos uma situação desfavorável e delicada na 4° dimensão, mas que podemos virar a nosso favor. Muitas almas estão em jogo. Mas se conseguirmos que o plano funcione o resultado pode ser melhor do que esperamos. Dê-me alguns minutos com Haiael para discutirmos os detalhes e em seguida você deverá partir.
   Gríffon ficou pensando no peso que aquelas palavras tinham. O peso de muitas vidas novamente em suas mãos. Não tinha medo da responsabilidade. Nem mesmo duvidava de sua capacidade. Mas a memória de seus amigos e o pesadelo da última batalha ainda martelava sua mente. Era mais como uma alfinetada, ou uma agulha. Não alterava sua vontade mas estava lá, incomodando...
   Deixou o palácio e caminhou em direção ao portão novamente, esperando ansiosamente por seu comandante. Ficou imaginando quem seria seu companheiro na missão, já que seus guerreiros mais experientes haviam sido abatidos ou estavam sem condições de luta. Olhou para cima e ficou surpreso ao ver luzes mais brilhantes que a própria luz do lugar. Elas deixavam o palácio em diferentes direções e em grande velocidade. Cobriu os olhos com uma das mãos e pode ver melhor as figuras iluminadas. Não eram simples luzes. Eram os anjos, cada um indo cumprir a missão que Metatron os incumbiu.
   Haiael desceu a colina em direção ao capitão que, maravilhado, ainda olhava as luzes se distanciando. Olhou para trás, assim como Gríffon, e não pôde deixar de admirar o belo espetáculo que lhe era muito familiar.
-   Não me canso de ver isso sabe... já vi esta cena milhares de vezes e toda vez me parece mais e mais bela...
-   Você parece diferente dos demais Haiael, não sei explicar. Talvez mais humano que eles... – o capitão pareceu buscar algo no rosto de seu amigo, sem saber exatamente o que procurava.
-   Curioso Gríffon? É meu amigo, você é perspicaz, não há dúvidas disso. Sim, tenho algo de diferente dos demais, mas por enquanto não há tempo para esta história. Está na hora de partir. – o capitão já cruzava o belo portão branco quando foi alertado pelo anjo. – Não meu amigo, você não vai por aí. Seu caminho hoje é outro. Causará um pouco de problemas em casa mas nosso tempo é curto. Vê aquele portão marrom, logo depois do palácio? É por ele que seguirá.
-   Sem problemas mas... e o meu acompanhante?
-   Está logo ali.
   Acenando para eles estava Djad, um jovem assim como Gríffon. Porém, diferente do guerreiro, seus olhos emanavam uma energia muito positiva, contagiante. O tipo de pessoa que ilumina o lugar com seu bom humor e positividade. – Quem sabe novos rostos não vão tirar esta cara amarrada, não é? – Disse o anjo, beirando o sarcasmo.
-   Não sei não mas acho que está zombando de mim...
-   Perspicaz mesmo, sem dúvida! – o anjo trocou um olhar rápido e ambos caíram na risada. – Parece que o garoto já está fazendo efeito, meu amigo!
-   Não se preocupe Haiael, se ele não fizer rir, o devolvo na primeira oportunidade! – Mais risadas acompanharam a brincadeira. – Agora falando sério, e a missão, amigo? E os detalhes?
-   Djad já sabe o necessário. Assim que chegarem lá, nosso contato os encontrará. Vão com Deus.
-   Te vejo em breve! – Se despediu o guerreiro, indo em direção ao seu novo parceiro na diplomacia. – Vamos?
   Djad concordou e ambos atravessaram o portão marrom rumo à quarta dimensão. Haiael ficou observando sua partida, já pensando em seus próximos passos. Muita coisa a partir daquele momento seria diferente. O tipo de mudança que não tem volta.
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   Cláudia chegou em casa com uma agonia no peito que não conseguia explicar. Chegou apressada com as compras por volta das 19:20, pouco antes de Tony. Viu o carro de Daniel na garagem e ficou imaginando porque o filho não estava na faculdade. Ao entrar viu Daniel deitado no sofá, segurando uma garrafa de cerveja vazia na mão e roncando muito. Soltando um longo suspiro de alívio, deduziu que tinha sido um dia difícil e decidiu deixá-lo ali até que o jantar estivesse pronto.
   Tony entrou cantarolando uma música e dançando com os braços erguidos, como se estivesse segurando uma parceira imaginária. A mulher não conseguiu se conter e soltou uma risadinha por entre os lábios. Ele nem deu bola e continuou dançando. Substituiu a parceira imaginária pela esposa que, ainda rindo, acompanhou o marido em sua alegria.
-   Ai Tony como você é besta, me conta logo vai. Porque você tá assim?
-   Sabe aquele contratinho que estávamos batalhando? O cliente assinou hoje à tarde!!! – Tony levantou Cláudia e soltou um longo “Uhuuuu” para comemorar o bom negócio. Bateu os olhos no filho e ficou imaginando porque ele não havia acordado com tamanha bagunça. – Desmaiou? – perguntou para a esposa, jogando a cabeça de lado.
-   Ah ele deve ter tomado uma cervejinha pra relaxar e capotou no sofá. Deve ter sido um dia difícil no trabalho. Deixa ele, daqui a pouco eu acordo ele pra jantar.
-   Bom então eu vou tomar um belo banho e você vai me acompanhar, porque nós vamos jantar fora hoje! E vai ser comida japonesa!
-   Então você vai comer poeira pois eu vou entrar no chuveiro antes de você! – E saíram ambos correndo feito adolescente em direção ao banheiro.
   Após um demorado banho, ainda de toalha, Cláudia cutucou Daniel carinhosamente para que o filho se juntasse a eles na celebração. Estranhou quando o rapaz nem se mexeu, e decidiu caprichar na cutucada.
-   Dani? Daniiiiii. Acorda filho, nós vamos jantar fora, pra comemorar uma ótima notícia. Vai garoto, acorda...
   Cláudia sabia que o filho era preguiçoso e chacoalhou bastante pra espantar toda e qualquer preguiça. Nada. Foi até o pé começou a fazer cócegas, coisa que o filho não suportava. Nada. Começou a ficar preocupada e chamou o marido.
-   Vai garoto, pára de bobeira que sua mãe já tá ficando preocupada... Dani? Daniel. DANIEL!!!
   O desespero tomou conta dos dois. O filho simplesmente não acordava! Buscaram um copo de água, jogaram no rosto dele e nada. – Ai meu pai, me ajuda! DANI!!!
   Tony pegou o telefone e ligou para os bombeiros, enquanto pedia que a mulher ficasse calma. “Ficar calma? Como?” repetia a mulher, chorando e balançando o filho que dormia, alheio a toda aquela confusão. E bem longe dali.

Capítulo 4 - Parte 1 - O Conselho dos Anjos

   Gríffon atravessou uma cortina de luz e chegou em um local muito claro, com um lindo gramado verde e muitas árvores. Olhou pra trás e percebeu que havia passado por um estreito portão verde. À sua frente uma estradinha feita de pequenas pedras brancas e amarelas partia de onde estava e chegava até um alto portão branco com barras de ferro finas e muito delicadas. Os detalhes pareciam ter sido feitos por representantes de uma arte que havia muito tempo não se via. De cada lado do portão erguia-se uma cerca viva, que seguia até onde a vista alcançava e além. O portão era o acesso à um pequeno palácio que fora construído no topo de uma colina e era semelhante àqueles construídos na Grécia antiga. Parecia que aquilo tudo era uma miragem ou um sonho mas, ao desviar seus olhos novamente para o portão, viu seu amigo parado ao lado de uma de suas colunas. Era o Portão da Sabedoria. Haiael o recebeu com um forte abraço e um longo suspiro.
   - Bom vê-lo novamente, meu amigo. Pena que seja em tais circunstâncias...
   - Concordo plenamente. – nesse momento colocou uma das mãos sobre os olhos para se proteger de uma luz que parecia vir de todos os lados. – Onde estamos Haiael? Não me lembro desse lugar.
   -  Essa é a dimensão da luz, a dimensão celestial. Antes de Deus criar a terra e o universo ele decidiu criar uma dimensão de onde pudesse observar tudo o que se passa em sua vasta criação. Então criou a dimensão celestial onde as almas de todos os seres descansam após a morte e encontram a paz. Essa dimensão também serve de casa para os anjos e servidores do senhor e aqui os inimigos não conseguem entrar.
   -  E por quê não?
   -  Porque toda esta dimensão foi criada a partir da luz divina. Imagine toda uma dimensão cheia do poder que o inimigo mais teme. Por isso, eles nunca seriam capazes de chegar aqui. A presença de Deus os afasta. Aqui é o que vocês chamam de céu.
   - Me alegra muito saber que ao menos uma dimensão está salva do Poder Negro.
   - Não apenas esta dimensão! A dimensão da terra também está protegida dos ataques diretos do mal. Mas indiretamente eles influenciam a vida dos humanos através dos anjos inferiores.
   - Anjos inferiores? Achei que os anjos negros fossem os únicos filhos do Anjo Caído.
   - Não, infelizmente não. Ele não tem o poder de criar nada, somente destruir ou desvirtuar as criaturas já existentes. Desde sua queda, ele vem recrutando os espíritos de humanos que, durante a vida, se deixaram influenciar pelo mal. Assim como cada ser humano tem um anjo da guarda, o mal designa um espírito inferior para influenciar as decisões dos humanos e tentar aumentar o seu exército.
   - Meu Deus, fico imaginando qual será o tamanho desse exército...
   - Eu nem consigo imaginar. Bom, acho melhor irmos para o conselho logo pois a situação pede rapidez!
   Foram caminhando em direção ao palácio que coroava a pequena colina chamada de “Colina Celestial”. Tal palácio era chamado pelos próprios anjos de Palácio do Conselho e era onde as grandes reuniões eram realizadas de tempos em tempos. Mas há muito havia sido realizada a última e todos os membros do grupo estavam apreensivos sobre as notícias que o guerreiro e o anjo traziam do campo de batalha.
   Finalmente entraram através de duas grandes portas de madeira de grande beleza e viram uma mesa de mármore com detalhes em prata, no centro do salão, que ofuscava ao primeiro olhar mas depois liberava aos poucos a visão de quem quisesse contemplar tal obra-prima. O salão interno era simples e sem adornos a não ser por alguns candelabros com velas que queimavam eternamente, representando a luz divina.
   Havia na mesa onze cadeiras altas, cinco de cada lado, e uma na ponta. Das dez cadeiras dos dois lados, havia apenas uma vaga. As outras estavam ocupadas com figuras nobres e cheias de poder, dotadas de um grande amor por Deus e por todas as coisas. Esse grande amor era o motivo da existência de tal conselho. De repente, uma figura levantou-se do lado esquerdo e em voz alta anunciou o início da reunião.
   - Estamos iniciando a reunião do Conselho dos Anjos que nos foi solicitada pelo anjo Haiael, da Hierarquia dos Anjos e comandante da Ordem dos Guerreiros Arkiax. Ele nos traz informações à respeito das investidas do mal e como andam nossas defesas contra tal poder. Por isso, eu lhe dou a palavra, irmão Haiael.
   - Obrigado Metatron. É com grande pesar que eu convoco este conselho pois as notícias que trago não são boas e acho que devem ser ouvidas por todos aqui presentes, devido à gravidade da situação. Antes porém, gostaria de apresentar o meu convidado que foi autorizado pelo líder do conselho a comparecer a esta reunião. Este que vos saúda é Gríffon, capitão da ordem dos Arkiax e bravo guerreiro e companheiro. Muitos dos acontecimentos que irão ouvir aqui hoje tiveram a participação, direta ou indireta, deste irmão. Ele merece não só nosso respeito mas também nossa admiração! – todos se levantaram e curvaram-se solenemente perante Gríffon. – Salve cavaleiro de Deus. – disseram em voz alta e sentaram-se novamente.
   - Sente-se capitão, pois creio que agora se faz necessária uma apresentação rápida dos membros de nosso conselho para que você saiba à quem está dirigindo a palavra. Do lado esquerdo temos Metatron, Príncipe da Hierarquia dos Serafins e líder do conselho; Raziel, Príncipe da Hierarquia dos Querubins; Tsaphkiel, Príncipe da Hierarquia dos Tronos; Tsadkiel, Príncipe da Hierarquia das Dominações; Camael, Príncipe da Hierarquia das Potências. – Todos acenaram com a cabeça em sinal de respeito.
   - Do lado direito temos Rafael, Príncipe da Hierarquia das Virtudes; Haniel, Príncipe da Hierarquia dos Principados; Miguel, Príncipe da Hierarquia dos Arcanjos; e finalmente Gabriel, Príncipe da Hierarquia dos Anjos e líder de todos os anjos da guarda. Eu me reporto diretamente à ele. – disse solenemente Haiael. Repetiram-se as formalidades.
   - Agora que todas as apresentações foram feitas eu lhe peço Haiael que tome o seu lugar ao centro da mesa, já que você solicitou a presença do conselho. – Disse Metatron, dando início aos trabalhos. – Comece e nos diga o que o aflige nestes tempos difíceis.
   - Meus irmãos do conselho, temos alguns acontecimentos que devem ser levados em consideração para que ações sejam tomadas e planos sejam feitos. Estes acontecimentos não podem ser deixados de lado pois são de extrema importância na luta contra a escuridão. O primeiro ponto é o surgimento dos anjos negros. Sempre soubemos da existência destes seres poderosos mas eles nunca tinham atacado abertamente como aconteceu nos últimos dias.
   - Os Urumann atacaram? Como isso é possível? Quando isso aconteceu? – Perguntou Haniel. – Eu mesmo não tenho informação de tal batalha em nossos reinos.
   - Sim Haniel, infelizmente eles atacaram e o saldo desse ataque foi desastroso. Tu não possuí informação nenhuma pois esta, como muitas outras batalhas, foi disputada nos cantos escuros da terceira dimensão, sem muitos espectadores. Não houveram muitos sobreviventes e os que resistiram não saíram ilesos de tal confronto. Neste momento peço ao capitão dos Arkiax que fale e conte-lhes o que aconteceu no campo de batalha.
   - Honrados príncipes do conselho. – Gríffon se levantou de sua cadeira com altivez e firmeza. Talvez aos olhos de um espectador que não o conhecesse, pudesse ser identificado como um anjo do próprio conselho. – Nosso encontro com os Urumann foi sem dúvida a pior situação de que eu me recordo, desde o início de meus serviços na ordem.
    Gríffon então passou a descrever os acontecimentos dos últimos dias, desde a Vila Bator. O massacre dos habitantes, a crueldade dos Messara e a grande caçada aos vilões. A abertura do portal, o encontro com Devlin e a morte de um deles pelas mãos do capitão.
   - Desculpe mas você disse que quando o inimigo morreu, sua carne derreteu restando apenas ossos e roupas. Você tem certeza disso, meu amigo? – perguntou Rafael.
   - Sim, isto aconteceu enquanto ele estava bem próximo de mim. Conforme ele caiu e foi perdendo suas forças, sua pele começou a desmanchar como se fosse feita de areia. Não consegui dar mais atenção pois fui atingido por algum tipo de disparo de energia, que me lançou para fora do portal.
   - Hum... entendo. Prossiga. – Gríffon percebeu que aquilo não era um bom sinal, definitivamente. – Mas fique tranqüilo pois mais adiante explicarei o motivo de minha pergunta.
   Mesmo querendo entender melhor, prosseguiu com as explicações. Falou sobre a fuga do local e também sobre a lança, uma arma angelical, ter ficado nas mãos de Devlin. Depois, lembrou com tristeza todos os acontecimentos que ocorreram entre a armadilha dos Urumann e o desfecho trágico que culminou com a morte de quase todos os guerreiros, na praça da Vila Bator.
   Um silêncio tomou a sala após o capitão terminar seu relato. Todos os príncipes abaixaram suas cabeças e iniciaram uma oração pelas vítimas. Trocaram olhares e Metatron tomou a iniciativa de quebrar o silêncio.
   - Bom, temos nas mãos um grande problema. Esta foi a primeira vez que os Urumann saíram abertamente para combater nossos guerreiros. Pelo que entendi, eles estavam lá para escoltar os habitantes e garantir que a entrega seria feita. Não podemos esquecer que a principal fonte de poder de Lúcifer são seres vivos, especialmente os que possuem uma alma. – O líder do conselho parou por alguns segundos, apoiando o queixo quadrado em sua mão calejada.
   - Isto indica a seriedade da operação. Algo maior está sendo planejado, talvez algo que nunca vimos antes. – Metatron olhava seus irmãos como se estivesse buscando em seus rostos preocupados, a resposta para o enigma trazido pelos inimigos.
   Haiael se levantou pois, pela primeira vez em muitos anos, viu a dúvida e a incerteza invadir aquele salão. – Irmãos, pelo jeito as informações que trouxemos são as únicas que temos até agora. Para podermos tomar uma decisão acertada, sugiro que busquemos mais informações, cada um à sua própria maneira, a respeito das ações do inimigo.
   - Tem razão Haiael. Desespero não combina muito conosco. – Metatron se sentiu, de certa forma, envergonhado por não saber o que fazer com a informação em mãos. Nunca havia hesitado daquela forma. Estava confuso sem entender aquele sentimento. Mas logo retomou o comando.

Continua...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Comentário do Autor

   Gente, sei que vocês perceberam que ficou um belo espaço de tempo entre os capítulos 2 e 3 e achei interessante passar aqui pra explicar melhor.
   Como vocês sabem, viver de literatura no Brasil é muito difícil e quando não temos patrocínio ($$$$), a única opção é correr atrás. Tenho a minha empresa e esse ano me dediquei inteiramente a ela e ao meu casamento, que será em julho de 2012.
   Mas como tudo na vida é cíclico, no fim do ano, quando o ritmo começa a diminuir, eu volto a escrever... bom, o tempo também ajuda mas prometo que vou tentar ser mais constante em relação a este projeto.
  Um abraço a todos!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Capítulo 3 - Parte 1 - De volta à vida

   Daniel acordou lentamente com o corpo dolorido e a alma machucada, percebendo que novamente tinha tido um daqueles sonhos loucos que sempre tem. Olhou no relógio e ainda eram quatro horas da manhã. Um vento forte balançava as árvores na rua, no melhor estilo “Poltergeist”. Levantou-se e foi tomar um pouco de água pois sua garganta estava seca como se tivesse corrido uma longa distância. Depois andou até o banheiro e parou um momento em frente ao espelho, observando atentamente as marcas que ainda estavam em seu corpo. Aquilo o havia atormentado e muito, mas ele agora estava disposto a esquecer tudo pois dentro de algumas horas teria que se arrumar para mais um dia de trabalho. Sentia que algo o impelia a ficar em casa mas não conseguiu identificar o que era. Deitou-se novamente e não sonhou.
   Acordou por volta de sete horas com humor e ânimo renovados. Decidiu que esse papo de sonhos malucos já estava indo longe demais. Tudo isso ficaria sem explicação mesmo, e ele iria continuar em frente pois o mundo lá fora não iria parar por causa de seus problemas sem solução. Tomou seu banho rapidamente e preparou o café em frente à televisão da cozinha para poder assistir às notícias, como gostava de fazer. Não havia nada de novo e os principais assuntos eram a alta do dólar, o preço da gasolina, greves e problemas com a crise mundial. Mas um assunto surgiu bem no final do programa. O repórter ao ler a notícia de emergência, ficou espantado com os fatos:
- Chegam agora tristes notícias à nossa central de jornalismo. Durante a madrugada, seis jovens foram brutalmente assassinados em dois abrigos mantidos pela prefeitura, um na zona norte e outro na zona leste. Ao que parece, os jovens foram atacados durante o sono, ainda em suas camas. No abrigo Filhos de Deus, morreram dois jovens de dezessete anos e um de dezenove com mutilações pelo corpo todo causadas provavelmente por objetos cortantes. Já no abrigo Anjos da Guarda, morreram outros três jovens na mesma faixa de idade sendo que um deles foi decapitado. Até o momento não há pistas de como estes jovens morreram e quem os matou. A polícia está investigando os dois casos que, sem sombra de dúvida, têm alguma ligação. Segundo os investigadores, os ferimentos são muito parecidos. Resta-nos saber o motivo de tal tragédia. Bom dia a todos, e nos vemos no jornal do meio dia.– encerrou o repórter.
- Meu Deus, que horrível! Pobres garotos, seja lá o que tenha acontecido com eles. Imagino que nenhum deles merecia uma morte assim, dormindo – disse Daniel.
- É bom que pense assim meu filho. – Elogiou Cláudia ao ver que seu filho realmente se importava com aquelas pessoas, apesar de não conhecê-las. – E é bom também ver que você está melhor hoje. Você dormiu bastante hein? Como se sente?
- Aliviado e assustado ao mesmo tempo. Decidi tentar esquecer todo esse problema dos machucados e das marcas pois parece que qualquer explicação que eu encontre não será satisfatória. Mas você viu esses crimes? Fico imaginando como estes jovens foram assassinados e porque. – Mal sabia que estes jovens faziam parte da ordem dos Arkiax e pereceram nas ruas da vila dos Bator.
- Também gostaria muito de saber o que aconteceu com você e descobrir logo este mistério. Mas parece que não encontraremos um motivo que nos pareça lógico. E digo o mesmo sobre estes pobres garotos. Qualquer que seja a solução destes casos, ainda assim eles terão morrido sem motivo.
- Bom, chega de ficar filosofando pois tenho que pegar no batente ou a Joana me mata. Vou escovar os dentes e já estou saindo, tá mãe?
- Tudo bem meu filho. Mas se precisar não hesite em ligar, certo?
- Combinado!
   Logo após, Daniel já subia a rua coms eu carro, atingindo a avenida e depois finalmente sumindo aos olhos de sua mãe. Mas apesar de todo o esforço em tirar tudo da cabeça e se concentrar, todo aquele assunto estava vindo à tona novamente e algumas vezes se pegava pensando no que realmente tinha acontecido. Ligou o rádio mas não conseguiu nada melhor, pelo contrário, teve suas dúvidas cada vez mais confirmadas por uma reportagem de sua emissora preferida.
- Foram encontrados mais oito corpos de garotos entre 18 e 21 anos mortos em diferentes abrigos e casas de jovens da prefeitura. Os corpos foram encontrados mutilados, alguns com suas cabeças cortadas, e com ferimentos que demonstram requintes de crueldade por parte de seu executor ou executores. Agora já são 14 corpos de jovens que são encontrados nas mesmas condições e com os mesmos tipos de ferimentos. Todos já foram encaminhados ao IML para que os peritos possam dizer se os crimes tem alguma ligação entre si. Estaremos durante todo o dia acompanhando este caso que está chocando os paulistanos nesta manhã de quarta-feira.
- Meu Deus, o que está acontecendo? Onde vamos parar com tanta violência?
   Ao chegar ao trabalho encontrou com sua amiga Juliana no corredor, que logo veio fazendo milhares de perguntas sobre o dia anterior.
- Calma Jú, eu estou bem. Só estou um pouco confuso com algumas coisas que aconteceram ontem, mas no geral estou bem.
- Poxa, do jeito que você saiu ontem pensamos que você tinha sido demitido. Pensei em ligar na sua casa mas achei melhor conversar com você hoje. Tinha esperanças de que nada havia acontecido. Mas pela sua cara algo aconteceu, apesar de não ser exatamente o que imaginamos. Posso ver isso em seu rosto, esse ar de preocupação.
- Jú, vamos fazer o seguinte: na hora do almoço eu conto tudo e a gente conversa tá? Tenho que trabalhar naquele maldito projeto da cervejaria.
- Está bem, mas no almoço você não me escapa, tá? Vê se toma cuidado com a cobra pra ela não te mandar embora.
- Ela sabe que precisa de mim. Eu vou ter uma séria conversa com ela hoje!
- Ai meu Deus, toma cuidado com o que vai falar…
- Relaxa, vou falar somente o necessário.
   Entrou em sua sala e lançou um olhar frio para Joana que se encontrava perdida em fotos para um anúncio.
- Bom dia...
- Bom dia Daniel. Espero que você esteja melhor pois ainda precisamos conversar sobre ontem, não acha?
- Pra mim aquele assunto está resolvido. Não tenho mais nada a falar com você sobre ontem.
- O quê? Você me desrespeitou na frente de nossos melhores e mais importantes clientes e além de tudo…
- Pode parar por aí! Já estou de saco cheio de ouvir as suas reclamações sobre o meu trabalho! Você quer conversar sobre ontem? Ok, pra começo de conversa o pessoal da cervejaria tinha adorado o meu projeto e já estavam prontos para assinar o contrato quando você entrou no meio e boicotou o projeto todo! Agora me diz, você se sentiu ameaçada por ser um projeto inteiramente meu, Joana?
- Do que você está falando? – Joana ficou assustada com a reação de Daniel que era no mínimo inesperada, pois apesar de toda a pressão o rapaz sempre tinha sido educado. - Eu nunca faria isso!
- Mas você fez! Eu estou cansado disso tudo e só estou trabalhando aqui porque eu preciso. Pois caso contrário, eu já estaria longe daqui só pra não ter que ouvir a sua voz de novo
   Joana via nos olhos de Daniel uma raiva que nunca tinha visto antes. Ele sempre foi conhecido por sua famosa rebeldia mas nunca foi violento. Joana sentia como se ele fosse pular em seu pescoço e estrangulá-la com toda a força e nenhuma piedade. Um dos diretores da empresa estava passando quando ouviu a discussão entre os dois e decidiu intervir.
- Posso saber o que está acontecendo aqui?
- Pronto mais um…
- É melhor o senhor controlar o seu gênio rapaz! Você tem ótima reputação com a presidência por causa do seu talento mas a sua rebeldia pode por um fim nisso e na sua carreira.
- Vem cá… isso é uma ameaça?
- Não, mas pode ser se você quiser. Só achei que você me respeitasse mais pela nossa amizade do que pelo meu cargo.
   Daniel ficou sem palavras para enfrentar aquele argumento. O homem em frente dele era o mesmo que o tinha colocado na agência e boa parte de sua reputação se devia ao fato de que esse mesmo homem chamou a atenção dos altos cargos para o talento daquele garoto. Seu nome era Ricardo e além de ser seu mentor também era seu amigo.
   Mas o estrago já estava feito. Joana à esta altura já estava chorando e provavelmente iria levar isso à diretoria. Já estava no corredor quando os dois continuaram a conversa.
- Você sabe que pode ter enterrado sua carreira aqui e agora, não sabe? Não por mim, mas por ela. Você é um ótimo garoto e eu sei que a Joana é uma bruxa, mas você nunca deveria ter deixado a situação chegar à esse ponto.
- Eu sei Ricardo, mas… Poxa, você sabe como eu ralei pra chegar aqui, pra fazer isso. Mas esta mulher está fazendo da minha vida um inferno! Sem contar que eu estou passando por um monte de coisas que nem se eu contasse você entenderia.
- Eu sei, eu já tive a sua idade um dia. Vamos fazer o seguinte, tire a manhã de folga e depois do almoço a gente conversa. O que você acha?
- Mas cara, isso não é justo! Eu acho…
- Não fala mais nada. Só vê se vai pra casa, relaxa que eu vou tentar limpar a sua barra por aqui. Certo?
- Bom, de qualquer forma eu detestaria ver a cara daquela bruxa agora. 
- Isso e vê se refresca a cabeça antes de voltar.

   Pegou suas coisas e foi saindo rapidamente. Nem teve tempo de ver Juliana preocupada, olhando de longe a sua partida. Simplesmente saiu. A raiva ainda estava cravada em seu peito e o sangue ainda fervia. Sabia que tinha poucas chances de resolver esse assunto de uma maneira agradável. Mas no momento ele não estava ligando muito pra isso, mesmo que depois talvez pudesse se arrepender daquilo tudo.
   No caminho de casa ligou o rádio novamente sem se lembrar de tudo o que estava acontecendo na cidade, que estava chocada com as mortes misteriosas. Agora, todas as rádios pareciam já ter muitos detalhes que nem mesmo as famílias tinham.
- Foram encontrados mais três jovens em condições parecidas aos outros mortos durante a madrugada. Mas dois deles ainda se encontravam vivos apesar de estarem em estado grave. O outro foi encontrado com uma perfuração na altura do coração. Os policiais dizem que tudo indica que tenha sido suicídio, devido ao ângulo e a profundidade da perfuração. Porém a possibilidade se mostrou um tabnto remota pois o rapaz estava num quarto trancado e não foi encontrada a arma do crime. Quanto aos outros dois rapazes, foram internados na Santa Casa com graves fraturas e muitas escoriações pelo corpo. A polícia pretende interrogá-los sobre o que aconteceu assim que eles recuperem a consciência.
- Nossa, tinha até esquecido desse caso. – Ficou esperando mais notícias mas, no seu caminho de volta pra casa, não houve mais nenhuma informação. Ao chegar, percebeu que sua mãe havia saído e que estava sozinho em casa.
- Ainda bem, vou ter a casa só pra mim.
   Agarrou duas cervejas long neck e sentou no sofá com o controle na mão. Tentou achar alguma coisa interessante que o ajudasse a relaxar. Colocou em um canal de clipes musicais e se ajeitou no sofá com as pernas pra cima. Cinco minutos depois o telefone toca. Era Ricardo que pedia que ele ficasse em casa hoje pois o clima estava bem feio por lá. Joana havia contado o episódio, com sua própria versão, para alguns diretores influentes da agência. Parecia que eles não estavam muito felizes com a atitude de Daniel. – Que seja, agora já estou aqui mesmo, com a cerveja na mão e sentado no sofá. E nada ia me tirar daqui mesmo – respondeu ao seu amigo.
   Quando desligou o telefone percebeu um recado de sua mãe colado nas costas do aparelho. Dizia que sua namorada tinha ligado e que estava furiosa pois ele estava sumido desde o final de semana. E que se ele não ligasse hoje depois das seis da tarde, que não precisaria se preocupar em ligar nunca mais. – Pronto, era o que faltava pra fechar o meu dia! Essa foi a chave de ouro. – E tomou a cerveja de uma vez só, recostando sua cabeça no braço do sofá. Ficou perdido em pensamentos e decidiu abrir a outra garrafa. Bebeu-a quase tão rápido quanto a outra. Os sonhos, o machucado em seu peito e a cicatriz em seu ombro sem explicação, os problemas no trabalho, sua namorada furiosa. Sem contar com o trabalho da faculdade que deveria ser entregue dois dias depois. Pensou em seus pais e em todo o apoio que recebia deles e uma sensação reconfortante tomou conta de sua mente.
Adormeceu ali mesmo no sofá, um sono inquieto e perturbado onde mais um sonho o encontrou e o levou à um belo lugar onde as decisões mais importantes de sua vida seriam tomadas dali por diante.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Capítulo 2 - Parte 2 - Encontro com a morte.

   Então os dois desapareceram no vento sobre os olhos furiosos dos Urumann que ficaram no local. Menos Devlin. Ele agora olhava para a poderosa lança de Gríffon. Seu nome era Ursan e assim foi chamada por causa do poder e da leveza de seus golpes. Ela parecia ter vida própria e sua lealdade à Gríffon foi facilmente percebida. Olhou-a por um tempo, tentando imaginar o que havia acontecido naqueles segundos que antecederam o teleporte. Mas não pôde decifrar e ficou em dúvidas. Mesmo assim só conseguia vê-la como a isca para atrair seu inimigo e a arma para matá-lo.

   Os guerreiros foram reunidos em uma gruta bem longe da aldeia, onde não seriam detectados ou vistos. Os ferimentos eram graves e só poderiam ser curados depois de muito tempo. E teriam que voltar para a dimensão deles imediatamente.

- Rápido Haiael, eles tem que voltar!

- Sim eu sei, Gríffon. Mas temos que curá-los antes de enviá-los de volta. Caso contrário, eles não sobreviverão. Mesmo assim, seus corpos ainda terão seqüelas na sua dimensão, pois o corpo reflete o que acontece com o espírito.

- E o que podemos fazer por eles?

- Estou fazendo uma oração para que o mal que os atingiu saia de seus espíritos. Mesmo assim, o mal que sair de dentro deles deixará cicatrizes. A recuperação vai ser difícil e a explicação sobre o aparecimento desses ferimentos será ainda mais complicada.

- Você não pode fazer algo a respeito?

- Não sei, meu amigo. Preciso pedir autorização para o Conselho dos Anjos pois isso é muito incomum. Geralmente não fazemos este tipo de coisa. Mas não há dúvida de que algo deve ser feito pois as pessoas da terra irão achar muito estranho a morte de 16 jovens, com graves ferimentos sem explicação. Sem contar as lesões de Riant, Disper e Menar.

- Então os guerreiros que morreram hoje aqui também estão mortos na terra?

- Infelizmente, a resposta é sim. E os ferimentos responsáveis por suas mortes estarão também presentes em seus corpos.

- Meu Deus, o que os pais desses jovens irão pensar? Se algo não for feito, ficarão o resto de suas vidas tentando adivinhar o motivo da morte de seus filhos.

- Por esse motivo nós escolhemos, na maioria das vezes, jovens que não tem família ou que estão longe de casa. Somente alguns como você tem família, uma casa, trabalho, ou seja, uma vida normal. Mas você foi escolhido por sua força, pois você estava acima da média. E pelo que eu vi hoje, seus poderes continuam crescendo.

- Como assim? – perguntou o guerreiro.

- Tenho dois motivos para crer no aumento de seus poderes: o primeiro foi quando você atacou o anjo que tinha matado Morad. Percebi que mesmo com uma arma menor, suas mãos não tremeram ao tocar o inimigo. Sempre soube que sua coragem não tinha limites, mas sua força me surpreendeu. O segundo acontecimento foi pouco antes de nosso teleporte, quando você estendeu a mão em direção à Ursan. A arma respondeu ao seu chamado e se Devlin não tivesse força suficiente teria seu braço arrancado. Sim, não tenho mais dúvidas de que acertei ao entregar o posto de capitão à você.

- Agradeço sua preocupação sobre meus poderes mas no momento estou mais interessado na vida de meus homens. Faça o que deve ser feito e mande-os de volta antes que uma tragédia ainda maior caia sobre eles.

- Sim, meu amigo, tem razão!

   Então, Haiael começou sua oração e aos poucos sua voz foi ficando mais forte. O aumento no tom era gradual e constante. Logo, sua voz enchia a câmara onde estavam e se tornava poderosa como fortes ondas atingindo uma parede de rochedos que se extende enfrentando o mar. O que parecia súplica se tornava tão forte como uma ordem ou um grito na noite.

   Gríffon observava tudo de perto, assustado com a feição do anjo que parecia ter uma força enorme e ao mesmo tempo um amor confortante. Lágrimas caiam da face de Haiael, tamanho o esforço de sua prece. Finalmente puderam ver o resultado de suas orações. Pequenas gotas de um líquido negro foram saindo dos corpos dos guerreiros, exatamente pelos ferimentos causados pela luta anterior, se é que se pode chamar aquela covardia de luta.

   Seus corpos, além dos machucados, estavam sendo envenenados lentamente com a maldade das armas negras e caso não fossem curados antes de voltar à sua dimensão morreriam lentamente ou seriam tomados pela maldade e passariam a cometer atos insanos e maldades inomináveis.

   Após muita oração e fé, o mal parecia estar sendo desfeito. Restavam agora os ferimentos físicos. Estes sim levariam mais tempo. Se pelo menos o anjo Rafael estivesse ali.

- Pronto. Agora devemos enviá-los de volta. Como se sente, Riant?

- Muito melhor. Já podia sentir o mal tomando conta de mim. Mas meus ferimentos são graves e ainda sinto muita dor.

- Infelizmente quanto a isso não posso fazer muita coisa pois não tenho o dom da cura de ferimentos físicos.

- Me mande de volta Haiael e talvez em alguns dias eu esteja novo em folha e poderemos vingar a crueldade cometida aqui hoje.

- Receio que serão mais que alguns dias, meu amigo. Mas você ficará bem e então lutaremos juntos novamente.

   Haiael disse algumas palavras e o espírito de Riant foi levado pelo vento. Olhou para Disper, que neste momento, estava perdido em pensamentos mesmo com a forte dor que o afligia.

- O que pensa meu amigo? Como está se sentindo?

- Penso em nossa derrota. Como é possível que esses malditos tenham tanto poder? Como puderam nos enganar tão facilmente? Sinceramente não vejo como podemos enfrentá-los, meu comandante.

- Lembre-se que eles também são anjos, à moda deles, portanto também são poderosos. Mas existe um jeito sim de enfrentá-los, caro Disper e peço agora que não perca as esperanças pois isso será revelado com o tempo. Mas agora não é o momento apropriado e deve se preocupar apenas com a sua recuperação.

- Sim, mas não deixo de estar preocupado. Estou neste grupo há cinco anos e nunca sofremos uma derrota, nem mesmo um ferimento mais grave, apenas arranhões. E olhe para nós agora! Parecemos trapos de guerreiros! – Haiael percebeu que até mesmo a inabalável coragem de Disper tinha seus pontos fracos. Seu rosto tinha uma estranha expressão de desespero nunca vista por seus companheiros em tão valoroso guerreiro.

- Pois não se preocupe, meu amigo. Tudo vem ao seu tempo e estou certo de que muitas vitórias estão em nosso caminho. Pois o mal nunca descansa, apenas se esconde por um tempo. Precisamos de guerreiros fortes como você para lutar contra isso.

- Trato justo, meu amigo. Realmente precisarei de um tempo antes de lutar novamente, embora meu coração não concorde e minha alma ainda lute contra essa idéia. Ok então, nos veremos em breve.

   Após isso, Disper foi enviado de volta pra casa. O último dos feridos era Menar que parecia paralisado por tudo que presenciou. Ao mesmo tempo, um ódio muito grande crescia dentro do guerreiro. Ódio pelos assassinos de seu irmão e ódio de si mesmo pois não pôde fazer nada para impedir a morte de Morad. A dor física que estava sentindo era ínfima perante o mal que lhe foi imposto.

- Menar, diga-me como está? Existe algo que eu possa fazer para aliviar a sua profunda perda? Diga meu amigo.

- Eles conseguiram, Gríffon. Levaram a única pessoa que eu tinha na vida... meu irmão.

- Mas o seu irmão morreu como um guerreiro lutando por um ideal. Ele morreu de forma cruel, mas bravamente.

- Não! Ele morreu como um porco no abate! E eu não pude fazer nada… – Os olhos do guerreiro se encheram de lágrimas e sua voz começou a fraquejar, passando da tristeza profunda para um abismo de desespero. – E o pior é que eu não pude fazer nada por ele… nunca me senti tão impotente… que ódio! Que ódio!

- Rápido Haiael ele está perdendo o controle! Faça alguma coisa! – gritou Gríffon vendo a situação de seu guerreiro. Parecia que o veneno das armas de seus inimigos ainda estava agindo em Menar e estava tomando conta da mente e do coração dele, pois era assim que tais armas agiam. Tomavam mente e coração através do ódio e do desespero da vítima. Após isso, mesmo que seus ferimentos físicos se curassem, essa pessoa jamais seria a mesma, passando a agir e a pensar de forma obscura. Acabava por se tornar naquilo que combatia.

   Haiael então ajoelhou-se ao seu lado e começou a rezar com uma nova força na voz que foi se elevando cada vez mais e novamente ecoou forte nas paredes do esconderijo. Continuou rezando por mais quinze minutos ininterruptos e nada diferente aconteceu a não ser a agonia de Menar que estava se tornando cada vez maior. Gríffon levantou-se e caminhou em direção à entrada da gruta, ficando em silêncio e observando a chuva que começava lá fora.

   Subitamente, o anjo parou e mesmo demonstrando sinais de extremo cansaço, recomeçou a luta contra o veneno. Agora Menar, que naquela pequena pausa estava se sentindo melhor, voltava a sentir dor e sofrimento. Passou a gritar e contorcer o seu corpo cheio de fraturas: a “mancha negra” havia penetrado fundo em sua alma. O próprio guerreiro já se sentia sendo tomado pela escuridão e sua admiração pelos dois companheiros se transformava em repulsa. Rapidamente se ergueu e ficou sentado com a ajuda das mãos como se a dor o tivesse abandonado. Puxou uma longa faca de sua perna e atacou o anjo no braço esquerdo, fazendo com que ele caísse sentado e olhasse assustado para o companheiro.

   Menar então, percebendo a loucura de seu ato como se acordasse de um sonho, começou a chorar novamente, mas agora de vergonha. Tinha descoberto os efeitos do domínio negro e o ataque foi a primeira e talvez a mais terrível prova de que era tarde demais. Levantou sua cabeça e olhou nos olhos do anjo e depois nos olhos de seu capitão que, ao ouvir o silêncio, retornou rapidamente. E naquele breve momento de lucidez, entregou-se de vez ao desespero.

- Sinto muito amigos mas para mim é tarde demais. Sua ajuda infelizmente não foi o bastante pois eu mesmo não desejo a cura, e sim morrer com meu irmão. Agradeço-lhes tudo e agora devo partir.

   Então com a mesma faca que havia atacado Haiael, Menar tirou sua vida perfurando o seu peito na altura do coração. Seus companheiros gritaram mas ele foi rápido demais para que pudesse ser detido. Havia decidido seguir seu irmão aonde quer que ele tenha ido. Foi também um ato de coragem pois sabia que era tarde demais. A mancha negra não o deixaria nunca mais. Seria um perigo para si mesmo e para todos à sua volta, mesmo após sua recuperação. Resolveu tirar a própria vida para não tirar outras vidas.

   Gríffon caiu de joelhos e chorou assim como o anjo, que se viu derrotado e humilhado perante mais uma perda, uma terrível perda. O capitão retirou lentamente a faca do peito de Menar e viu seu espírito ir sumindo como areia no vento. E então sua essência se juntou à chuva que caia e desapareceu da visão dos vivos.

- Será que essa maldita noite de desgraças não tem mais fim? Que faremos agora, Haiael?

- Me dê alguns minutos para refletir e reorganizar meus pensamentos. A noite de hoje não tem precedentes e merece alguns minutos de ponderação antes de qualquer ação impulsiva.

   Então Haiael se sentou no chão da gruta e colocou a cabeça entre as pernas, perdendo-se em pensamentos escuros como pesadelos. Gríffon saiu da gruta e permaneceu alguns minutos na chuva, olhando para o céu negro. Tirou então o que restava de sua armadura e jogou-a no chão, conservando apenas suas roupas de linho branco e as duas adagas de Kron em seu cinto. Ergueu suas mãos, com os punhos cerrados e chorou novamente. Num último suspiro de frustração e derrota, o capitão bradou na noite palavras que foram ouvidas até mesmo pelos guerreiros negros na distância em que estavam.

- Devlin! Escute bem o que vou dizer, maldito! Eu vingarei cada guerreiro morto hoje! Nem que seja a última coisa que eu faça! Eu vou caçá-los e arrancá-los de seus buracos imundos! Eu juro!

   Continuou a chorar por longos minutos e então caminhou de volta para a gruta. Ao chegar encontrou o anjo na mesma posição que o deixara minutos atrás. Haiael levantou-se e comentou com seu amigo qual era a sua decisão.

- Muitas coisas terríveis aconteceram hoje e também terríveis revelações. Tais coisas devem ser levadas ao conhecimento do conselho dos anjos o mais rápido possível. A revelação dos Urumann, a emboscada e muito mais deve chegar ao conhecimento do conselho pois uma guerra se aproxima e devemos começar a movimentar nossos exércitos para defender as dimensões.

- Tem algo mais que eu notei. Na noite anterior quando libertamos os Bator e fomos atacados pelos Urumann, eu acabei por matar um deles ainda em sua dimensão, antes de ser jogado pelo portal. Cravei Ursan em sua carne e o vi derreter, deixando apenas ossos e cinzas. Mas pensei que isso não deveria acontecer pois assim como nós, eles são espíritos, certo?

- Sim e isso me deixa ainda mais assustado. Para poderem aumentar o seu poder eles têm que assumir formas mortais e uma vez feito isso, o processo é quase impossível de ser desfeito e leva muito tempo. Mas se eles dominarem as outras quatro dimensões, não será necessário se tornarem espíritos novamente. Esse é mais um sinal, e talvez o pior, de que a guerra realmente se aproxima e de que a dimensão da terra é a última da lista. Temos que partir com máxima urgência!

- E quanto a mim? Poderei acompanhá-lo na reunião do conselho?

- Não agora pois preciso pedir permissão à todos do conselho para que um mortal possa estar presente à tal reunião. Esse privilégio nunca foi dado à um humano ou à qualquer outro ser, mas acredito que os tempos tenham mudado e uma nova mentalidade seja exigida. No que cabe a mim, sua presença será uma honra em nosso conselho. Enquanto isso, deve voltar à terra e deve permanecer alerta pois posso precisar de você, muito em breve. Eu providenciarei algo para que você fique em casa pois eu entrarei em contato à qualquer momento.

- Tudo bem, estarei aguardando o seu contato, meu amigo. Cuide-se bem.

- Você também capitão, e não deixe que a esperança o abandone pois novos dias virão e novas esperanças podem surgir. Até logo.

   Disse algumas palavras e então Gríffon foi levado de volta à sua dimensão assim como foram Disper e Riant. O anjo olhou pela última vez aquela caverna e o chão ainda tingido de negro e vermelho.

- Que Deus nos ajude!

sábado, 20 de novembro de 2010

Capítulo 2 - Parte 1 - Encontro com a morte

   Os guerreiros cruzaram rápida e silenciosamente a planície, seguindo a trilha deixada por seus inimigos na grama. Ao chegarem na vila, se reuniram atrás de uma pequena elevação da qual podiam ver a praça central. Puderam ver Devlin e os outros dois Urumann em volta de um círculo pintado no chão com sangue. Havia também algumas inscrições em letras que eles jamais haviam visto, mas que não tinham um aspecto muito agradável. Podiam até mesmo sentir as vibrações negativas que emanavam daqueles símbolos estranhos. No centro deste círculo estava o anjo Haiael com suas vestes rasgadas, sua pele queimada e mutilada mas ainda podiam vê-lo respirando. Estava amarrado e acorrentado à uma velha árvore no meio da praça. A visão era no mínimo cruel.

   Gríffon reuniu rapidamente os guerreiros em uma roda e, com um graveto, começou a desenhar no chão um plano de ataque.

- Bom, temos que ser realistas. Nossas forças não superariam as deles nem que estivéssemos com o dobro de homens aqui. Mas nossa inteligência pode superar a arrogância deles. A idéia é nos separarmos em três grupos, liderados por Disper, Riant e por mim. Estes grupos terão seis guerreiros cada e deverão atrair os Urumann em três direções diferentes. Enquanto isso, Morad e Menar irão libertar Haiael para que ele possa nos teleportar para um local seguro e possamos reavaliar nossa estratégia.

- Mas será que conseguiremos distraí-los tempo suficiente sem que eles nos matem?

- Só temos um chance: bater e correr. após atrair os anjos negros, os grupos deverão se dividir em duplas. Cada dupla realizará um pequeno ataque que virá de direções diferentes. A idéia é bater e fugir até que tenhamos libertado Haiael e possamos sair daqui sem feridos ou mortos. Lembrem-se, o objetivo não é matá-los e sim distraí-los. Procurem não se arriscar muito com ataques suicidas nem dar uma de heróis, certo? Sigam o plano e talvez saiamos dessa com vida. Alguma pergunta?

- Eu tenho um pedido a fazer! – Menar dirigiu a voz à seu amigo com estranha firmeza. – Eu gostaria de liderar um dos grupos com o meu irmão ao meu lado.

- E por quê gostaria de fazer isso? Percebe que a missão dos grupos é muito mais perigosa do que a sua e de seu irmão?

- Sim, claro que percebo. Mas gostaria de expressar um pouco do que sinto em relação àqueles monstros!

- Desculpe meu amigo mas este não é o lugar e nem o momento para vinganças pessoais. Acho que todos gostariam de sair vivos daqui e a sua vingança poderia por em risco todo o plano!

- Acho que não meu capitão. Garanto ao senhor que eu serei muito mais útil combatendo os Urumann do que cortando cordas e rompendo correntes. Além do mais o senhor seria mais útil junto com o anjo para planejar um jeito de nos tirar daqui todos vivos.

- Você está certo do que está me pedindo, Menar?

- Sim, meu capitão! Nunca tive tanta certeza de algo em minha vida!

- E quanto a você, Morad? O que pensa desta insanidade que seu irmão está pretendendo?

- Eu topo! Não vou deixar meus irmãos na mão.

- Está certo! Menar liderará o meu grupo e Morad substituirá um deste grupo que virá comigo. Quem se oferece?

- Eu, meu capitão! – Um rapaz de cabelos dourados, forte mas com olhos de menino ainda. Carregava uma enorme espada além de um belo escudo e duas adagas na cintura, feitas por Haiael.

- Qual o seu nome, guerreiro? Não me lembro de ter lutado a seu lado.

- Meu nome é Kron, meu capitão. Realmente nunca tive a honra de lutar ao seu lado. Eu realizava missões secretas à pedido do Conselho dos Anjos. Ordens diretas do próprio Gabriel. Destas missões nem mesmo vocês sabiam.

- Interessante isso! Eu vejo um brilho fosco vindo de suas adagas. Foram presente de um anjo?

- Sim e não. Estas adagas pertenciam ao meu companheiro nas missões que se chamava Tamris. Elas lhe foram dadas por Haiael. Mas em uma missão, fomos descobertos por Devlin e seus irmãos. Tamris foi atingido por uma lança poucos segundos antes de nosso teleporte. A lança literalmente o partiu ao meio. Me foi permitido ficar com as adagas de Tamris por não tê-lo abandonado naquele estado.

- Então, está certo. Você vem comigo. Vamos meus guerreiros, espalhem-se e espero encontrar a todos daqui alguns minutos.

   Com isto, os guerreiros juntaram-se aos líderes de grupo enquanto Gríffon e Kron dirigiam-se para trás dos inimigos. O grupo de Disper partiria da esquerda, o de Riant pela direita e o de Menar atacaria pela frente.

   Com um assovio de Riant, o ataque aos anjos negros finalmente havia começado. Os anjos reagiram com um estranho sorriso nos rostos e partiram em direção aos guerreiros com um olhar sombrio e armas em punho. O plano até ali estava funcionando!

   Rapidamente, Kron e Gríffon saíram das sombras e foram em direção ao anjo que estava preso à árvore. Kron ficou observando e dando cobertura enquanto Gríffon tentava libertar Haiael. Desesperado, o anjo olhava para seu capitão e tentava lhe dizer alguma coisa mas uma mordaça o atrapalhava. Gríffon a removeu e ouviu horrorizado às palavras dele:

- Não, Gríffon, é uma armadilha! Fujam!

- Sim, nós sabemos disso. Mas já temos um plano traçado para distrair os três enquanto libertamos você.

- Não! Não são três! São trinta!

   Mas era tarde demais para fugir. Kron chamou calmamente por Gríffon pedindo instruções. Ele foi até a posição de observação e o que viu acabou com todas as suas esperanças. Um grupo de anjos negros vinha lentamente em direção à praça carregando enormes espadas e lanças e vestindo suas túnicas rubro negras. Tentou pensar em algo rápido para tirá-los daquela situação. Voltou até o anjo para perguntar o que fazer.

   Neste instante, sentiu uma leve brisa. Devlin passou como um raio pelas ruas da vila e atingiu a praça. Quando Kron o viu, não havia mais tempo. Um poderoso golpe de machado, no peito do guerreiro, o fez atravessar a praça e bater no tronco da árvore em que Haiael estava preso. O golpe dilacerou o peito do jovem guerreiro.

   Gríffon soltou um grito de horror ao ver a armadura de Kron cair dividida em duas e seu tórax totalmente aberto. Correu e segurou-o em seus braços, com o coração acelerado.

- Meu capitão! Foi uma... honra estar ao seu lado... neste dia tão triste. Prometa-me que não importa o que aconteça você irá... viver! E vingará a minha morte. Salve Haiael e os demais... e fuja daqui. Por mim!

- Sim, Kron, eu prometo que vingarei sua morte. Mesmo que isso leve mais tempo que esta noite. Fique em paz, meu irmão Arkiax.

   Com isto, Kron fechou os olhos e a vida se esvaiu de sua forma. De repente ele começou a desaparecer lentamente e sua essência foi levada pelo vento como o pólen que é levado para outros campos. Só restaram sua armadura destruída e suas armas. As lágrimas escorriam dos olhos de Gríffon, um pequeno sinal da dor e da raiva no coração do guerreiro.

- Gríffon, pegue as adagas. Não deixe de pegá-las.

- Por quê, Haiael? Por quê as adagas são importantes agora?

- A esperança nunca deve morrer. E se ela desaparecer, a perseverança deve surgir. Estas adagas ainda lhe serão úteis. Guarde-as bem escondidas em sua armadura e não deixe que os inimigos as vejam.

- Por falar neles, por que estão parados ali e não acabam logo com isso?

- Não sei Gríffon, realmente não sei.

   Não demorou muito para que percebessem e entendessem as intenções de Devlin e seus malditos irmãos. Pouco a pouco, começaram a chegar os outros Urumann que saíram na caça dos três grupos de guerreiros que haviam se espalhado de acordo com o plano de Gríffon. Haviam dezoito guerreiros surgindo, o que fez Gríffon perceber a desvantagem de seus amigos.

- Haiael, não pode ser. Eles nos pegaram totalmente desprevenidos. Para cada guerreiro havia um inimigo em sua caça. Não tiveram a mínima chance!

- É o que parece, meu amigo. Infelizmente, não houve chance de vitória, desde o começo. Não deviam ter vindo aqui!

- O que queria que fizéssemos? Que simplesmente abandonássemos você? Você sabe que nunca faríamos isso. Mesmo sabendo que tudo era uma armadilha, não podíamos deixá-lo aqui.

- Eu sei disso. Não sei como mas eles usaram meus poderes para trazê-los aqui. Infelizmente isso causou a morte de todos exceto nós dois.

- Espere um pouco, Estou vendo quatro guerreiros sendo trazidos pelos Urumann. Oh meu Deus, são Disper, Riant, Morad e Menar! Eles estão vivos!

   Mas a visão, ainda assim, não era nada animadora. Os guerreiros estavam sendo arrastados pelas pernas ou pelos braços. Disper era puxado pelo seu longo rabo de cavalo, o que o fazia sentir uma dor insuportável. Foram jogados na praça, um pouco à frente do lugar em que Devlin estava parado, observando tudo.

   Gríffon foi em direção à eles lentamente procurando não tornar a situação mais tensa ainda. Fitou o líder dos Urumann por poucos segundos, tentando obter alguma informação. Olhou então seus amigos com o coração partido e abaixou perto de Riant. Seus olhos vermelhos de sangue tentaram sorrir para Gríffon.

- Ah, meu amigo, como pude deixar tal coisa acontecer com vocês? O que aconteceu no campo de batalha?

- Fizemos tudo de acordo com o plano, Gríffon. Mas de repente surgiram anjos negros de todos os lados, um para cada um de nós. Com golpes rápidos e certeiros, nossos guerreiros caíram. Somente nós fomos poupados, mas não sabemos por quê.

- Qual o estado de vocês? Conseguem correr?

- Nem em sonho, parceiro... Eu tive as duas pernas quebradas e meus braços estão tremendo depois que acertei um deles no ombro. Os outros não parecem estar muito melhores que eu.

- Pela primeira vez, não sei o que fazer... O meu instinto me diz uma coisa mas meus olhos dizem outra. Sinto que talvez seja nossa última batalha juntos.

- Talvez, meu amigo, talvez. Mas ainda temos o anjo! Liberte-o e talvez tenhamos alguma chance.

- Você está certo amigo. Espere um pouco, vou tentar distraí-los.

   Gríffon, levantou e encarou Devlin.

- O que quer de nós, seu maldito? Por quê não acaba logo com isso? Se quisesse nos matar já o teria feito. Diga-me: quais são seus planos? – O guerreiro foi lentamente seguindo em direção ao anjo enquanto Devlin argumentava. A cada passo, a cada palavra avaliava a situação, procurando uma saída daquele inferno.

- Meus planos? Você não está em condições de fazer tal pergunta.

- Eu sei. Aliás, como guerreiro, permita-me cumprimentar-lhe pela excelente estratégia usada aqui hoje. Você nos atraiu, nos enganou, aproveitou a vantagem e deu o golpe de misericórdia. Meus parabéns! – Disse Gríffon, em um tom irônico.

- Há, você é muito engraçado, capitão! Há, há, há, realmente essa foi demais! Nós não precisamos de estratégia para vencer vocês, ratos imundos! Somente nossa força e nossa maldade dão conta do recado.

   Naquele momento, Gríffon vislumbrou uma chance, pequena, mas lá estava. Só precisava arrancar mais informações do arrogante anjo negro.

- Permita-me então uma última regalia. De soldado para soldado. Diga-me, como forçou Haiael a nos trazer aqui? Só ele tem este poder.

- Você é abusado... Não lhe devo nada capitão. Mas, como está à beira da morte, posso te contar o que fazemos. Pro céu você não vai, disto tenha certeza. – Uma longa e maléfica risada zombou ainda mais dos caídos ali. – Vê este círculo de sangue? Ele permite que eu use o poder de teleporte do anjo, como eu quiser. E também impede que ele use. Magnífico não?

   Gríffon percebeu que tinha um problema nas mãos. Maior do que imaginava. Como tirar dali os sobreviventes sem o poder do anjo. Render-se não era uma opção. Não havia considerado todas as variáveis, em seu plano de resgate. Tinha que quebrar o círculo de sangue, mas... como? Qualquer tentativa agora era loucura, pura e simples.

- Tenho que tirar o chapéu Devlin, não estava contando com essa magia negra. Não há mais nada a fazer. Permita-me dizer adeus ao meu comandante e depois faça o que bem entender.

   As palavra saíram quase que sozinhas, algo programado. Precisava ganhar tempo pois sua mente estava concentrada em tirá-los dali. Olhou ao seu redor enquanto se virava. Lamparinas acesas iluminavam a pequena praça. Bancos de madeira ao redor da árvore e o chão de terra batida, nada muito útil. Tocou o sangue com sua bota e viu que ainda estava fresco. Algo naquela magia negra não permitia que o sangue coagulasse. Pelo contrário, o sangue corria rapidamente como se fosse o curso de um pequeno riacho.

   Percebeu que umas das lamparinas estava apagada mas cheia de óleo. Uma luz se acendeu em sua mente. Sabia como sair dali.

- Poderíamos fazer um trato, o que acha? – disse Gríffon.

- Que tipo de trato, guerreiro? O que você tem a oferecer que possa nos interessar?

- Vocês nos deixam ir e nós não matamos você e seus amiguinhos hoje. O que acha covarde? – Desferiu um chute derrubando a lamparina apagada, e fazendo com que seu óleo se juntasse ao sangue corrente.

- Diga, Gríffon, em que momento você perdeu sua sanidade? Quando destruí sua armadura ou quando destrocei seu amigo Kron?

   Olhou então firmemente para Devlin e toda a ironia tinha partido. O anjo negro o estava provocando e ele não parecia estar resistindo muito. O guerreiro se aproximou do anjo amarrado trazendo uma das lamparinas acesas em sua mão esquerda.

- Quer saber mesmo, Devlin? Quer mesmo saber em que momento perdi minha sanidade? No momento em que suas mãos sujas e fétidas tocaram em meus amigos. No momento em que seus pés, que já esmagaram muitos seres inocentes, pisaram esta dimensão e a contaminaram com o mal. Esse foi o momento em que perdi minha sanidade. Agora se você considera minha luta e de meus guerreiros uma insanidade, pense bem Devlin, o louco é você! Maldito!

   Gríffon soltou um poderoso grito que ecoou por toda a região durante alguns segundos. Devlin gargalhou debochando da inutilidade daquela situação. Tudo aquilo estava demorando muito, mas a diversão que seria a morte do capitão dos Arkiax ainda poderia esperar. Somente mais um pouco.

- Não vê a insensatez de tudo isso, guerreiro? De que adianta ficar gritando e esbravejando como uma mocinha? De que adianta?

   Gríffon avistou a espada de Kron próxima à armadura destruída. Lentamente, colocou seu pé direito sobre a espada. Piscou para o anjo, depositando a lamparina ao seu lado. Haiael percebeu então o plano do amigo.

- Aceito perfeitamente que não entenda, sua besta! Nunca iria perceber as minha reais intenções pois seus olhos estão cegos pela sua arrogância, “Sr. Ser superior”! Pois está na hora de abrir seus olhos. E o momento é agora!

   Com um movimento rápido de perna Gríffon levantou a espada de Kron e, num golpe só, cortou as correntes e cordas que envolviam o anjo, quase rachando a velha árvore ao meio. Ao ver isso, um dos anjos negros partiu em direção aos guerreiros caídos e rapidamente alcançou Morad. Devlin ordenou que ele voltasse à sua posição mas ele não ouviu. Levantou o guerreiro pelos cabelos e chamou por Gríffon:

- Guerreiro! Olhe para cá! Este é o destino de toda a sua raça!

   O Urumann puxou um enorme punhal de sua túnica e cortou a garganta de Morad. Gríffon urrou violentamente e foi em direção ao maldito, que havia assassinado seu amigo e companheiro, ignorando o risco de sua própria manobra. Menar tentou ajudar o irmão mas não conseguia nem mesmo se levantar e chorou sua impotência. Pôde ver através da cortina de lágrimas seu capitão que vinha como um trem para cima do maldito. Ele levantou a espada e golpeou velozmente o peito do anjo negro. Até os Urumann ficaram impressionados com a fúria e a velocidade do capitão dos Arkiax. Suas mãos não tremeram ou hesitaram em momento algum. Mas a espada não agüentou a pressão do corpo do anjo negro e da mão que a empunhava, partindo-se em vários pedaços.

   O Urumann golpeado se levantou e agarrou Gríffon pela nuca, erguendo-o a uma pequena distância do chão. Certo de sua vitória, o Urumann riu e levantou a sua arma para o esperado golpe. Gríffon olhou para Haiael e viu o e comandante dos Arkiax se levantar lentamente. Voltou seu olhos e ouviu a ordem de Devlin:

- Se matá-lo agora, meu irmão, não viverá muito para ver a punição de todos eles pelo nosso pai. Porque o punido será você! Largue ele agora!

   Gríffon sorriu e perguntou ao Urumann:

- Qual o seu nome?

- Tpok, por quê, vermezinho humano?

- Eu gosto de saber o nome de minha vítimas. Quando possível. – E com isso puxou as adagas que estavam escondidas em sua armadura e cravou-as no peito e na testa de Tpok. O anjo agonizou alguns momentos, caiu ajoelhado e começou a derreter lentamente, virando apenas ossos e cinzas.

   Os inimigos olharam enfurecidos para o assassino de seu irmão e partiram para o ataque. Devlin apenas sorria e observava o desfecho daquele dia maravilhoso que havia escapado de seu controle. Resolveu deixá-los executar os inimigos, menos o anjo.

- Agora Haiael!!! - disse Gríffon, recuando com as adagas em proteção aos seus amigos.

   Haiael então jogou a lamparina acesa no círculo de sangue que, misturado com o óleo, se acendeu em altas chamas azuis. O círculo estava quebrado!

   Com seu poder restaurado, teleportou os Arkiax machucados para um local seguro, há alguns quilômetros dalí. Gríffon voltou rapidamente em direção ao anjo para a fuga. Antes de fugirem, Devlin revelou uma arma que estava escondida em suas vestes. Sua luz brilhou forte como se estivesse lutando contra a maldade de Devlin. Seu tamanho quase alcançava os dois metros e meio. Gríffon parou e observou o objeto nas mãos do inimigo.

- Reconhece esta arma, Gríffon? Reconhece a “matadora de anjos negros”? Acho que você a perdeu em algum lugar não foi? Venha buscá-la!

- Ursan! Minha lança! Ela não pode permanecer em mãos erradas. Sabe disso não é Devlin? Sabe que eu não a deixarei com você! Ela é pura demais para permanecer em suas mãos.

- Venha buscá-la, poderoso capitão dos Arkiax!

- Devlin está te provocando! Vamos embora agora! Viva hoje e lute amanhã. Não se preocupe meu amigo, ele vai engolir estas zombarias. – Disse Haiael segurando no ombro de Gríffon com força.

- Em breve Devlin, em breve! – disse Gríffon, com uma ira controlada em seus olhos. Mas que seria facilmente libertada e dificilmente contida.

- Estarei esperando, capitão. Eu te darei a honra de morrer pelas minhas mãos empunhando a sua própria arma. Morrerá por ela, guerreiro, não se esqueça.

- Ela irá retornar a mim, mas para a sua morte maldito! – E levantou sua mão direita em direção à lança como se fosse pegá-la à distância. A arma tremeu na mão de Devlin como se estivesse sendo puxada. O Anjo negro só conseguiu segurá-la com muito esforço.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Capítulo 1 - Parte 4 - De sonhos e realidade

   De volta à agência, Daniel correu para a sala de criação para pegar todas as artes que fez para a campanha da cervejaria. Dirigiu-se à sala de reuniões para a apresentação, pensando e torcendo para que seu trabalho fosse aprovado de uma vez e outra visita fosse evitada. Na verdade, os clientes haviam gostado da criatividade de Daniel mas achavam que sua proposta ainda estava “longe da realidade”. Era a terceira vez que eles vinham até a agência para verificar o que estava sendo feito. A pressão sobre Daniel era forte demais, mesmo que seu talento fosse capaz de dar conta do recado. Era um trabalho importante para ele e para a agência.

   Juliana e Fabiana viram quando ele entrou na sala de reuniões e ficaram imaginando o que sairia dali. Uma pessoa vitoriosa e reconhecida ou alguém triste e chateado, tendo que reavaliar seu projeto e refazê-lo totalmente.

   Uma hora depois, a reunião chega ao fim. Os primeiros a saírem são os clientes, rindo e brincando alegremente. Depois saem Daniel e Joana, com um ar diferente mas com um sorriso nos lábios. Assim que ficam sozinhos no corredor, o semblante de ambos muda completamente. Ele se dirige rapidamente a sua sala, sem olhar para trás enquanto Joana o segue praguejando e resmungando coisas que ele não escuta. Ou prefere não escutar.

   No bebedouro, Juliana encontra Daniel e decide puxar papo para saber o resultado da reunião, mesmo que suas esperanças não fossem muito boas.

- E aí, Dani, o que rolou lá dentro? Eles aprovaram a arte ou rejeitaram?

- As duas coisas.

- Como assim?

- Eles gostaram do que fiz. Acharam as peças muito boas. Mas Joana não conseguiu suportar o fato de que eu fosse levar todos os créditos. Começou a apontar possíveis erros e a sugerir algumas mudanças.

- Tá, até aí tudo bem. Mas qual foi o problema?

- O problema foi que eu não aceitei. Estava tudo certo, o texto perfeito, a imagem batendo com o briefing. Demorou mas eu tinha conseguido alcançar o que eles queriam. E além de tudo, tinha cara de campanha vencedora. Mas eles decidiram aceitar as sugestões devido à experiência de mercado dela. Que droga, mais uma semana desperdiçada com isso, que saco!

- Ela deve ter ficado p. da vida por você ter discutido com ela.

- Há, há, há, pra ela aquilo foi insubordinação e merece punição severa. A voz dela é a pior punição existente. Já não agüento mais sabia? Estou perdendo o tesão de fazer isso. E a culpa é dela!

- Calma, também não precisa ficar assim, é só uma conta!

- Você não tem idéia da pressão para que eu consiga essa conta, que deve valer alguns milhões de dólares. Ainda por cima tenho a Joana me atrapalhando. As coisas seriam muito mais simples se ela não me atrapalhasse.

- Mas é ela é quem manda Dani. Segura a sua onda senão te mandam embora, garoto.

- Olha, eu estou chegando a um ponto em que eu já não ligo mais se me mandarem embora. Só de não ter que ouvir a voz dela, eu ficaria muito feliz!

- Bom vamos voltar ao trabalho, depois a gente se fala, tá? E vê se fica calmo!

- Pode deixar. Não vou deixar aquela bruxa estragar o meu dia.

   O que Daniel não sabia é que seu dia ficaria ainda pior. Ao entrar em sua sala, Joana começou novamente uma discussão sobre a milionária conta da cervejaria que ele, com sua famosa rebeldia, quase pôs a perder. Daniel somente escutava os argumentos rancorosos e injustos de sua chefe, tentando imaginar um jeito de sair da situação sem fazer nenhuma besteira. Mas a raiva foi tomando conta de seu espírito com a velocidade de uma flecha, incitando uma reação rápida e à altura de sua algoz. Mas quando se virou para encará-la e dizer tudo que pensava, alguma coisa o empurrou para trás. Não pôde ver o que era, mas sentiu claramente algo o empurrando e evitando que chegasse perto de Joana. Ela ficou olhando assustada, sem entender o que estava acontecendo. De repente, Daniel caiu para trás e sentiu o peito e o ombro doerem tão profundamente que parecia que ele havia sido atingido.

   Então, os clarões de antes voltaram com maior intensidade. Mas desta vez, não eram como flashs de luz mas sim como um grande e longo choque elétrico que fazia todos os seus músculos se contraírem. A voz que o havia assustado das outras vezes continuava poderosa mas agora era uniforme e Daniel pôde entender toda a mensagem que a voz trazia. Era algo assustador, pois parecia que ele estava sonhando acordado:

- Gríffon, precisamos de você aqui. Uma grande tragédia nos atingiu e a situação é urgente. Você precisa dormir para poder se unir aos outros Arkiax, próximo à ponte do Vale Bator!

   Daniel parou e com os olhos arregalados viu sua chefe, pasma com o que tinha acontecido. Nem mesmo ele acreditava no acontecido ali.

- Daniel, você está bem? – perguntou Joana, quase paralisada devido ao susto.- O que aconteceu com você, menino? Por quê você caiu no chão daquele jeito?

- Eu... não sei... foi muito estranho... eu senti uma forte dor no peito e...

- Ai meu Deus, você quase teve um enfarto! Eu vou chamar um médico urgente pra você!

- Não! Não precisa, eu já estou melhor... eu acho. Foi só um susto. Mas acho que seria melhor eu repousar o resto da tarde. Você concorda, não é Joana?

- Bom, se é por um motivo de saúde, tudo bem.

   Sem falar mais nada, Daniel desligou seu computador, pegou suas coisas e saiu sem olhar para trás. Suas amigas viram sua saída e logo pensaram no pior. Decidiram ligar mais tarde para averiguar o que aconteceu. Enquanto isso, ele não via a hora de chegar em casa, tomar um banho e relaxar um pouco. Quem sabe colocar as idéias no lugar e pensar no que aconteceu com cuidado.

   Ao chegar em casa, correu para o banheiro sem que sua mãe o visse e entrou no chuveiro, pois queria um banho gelado urgente. A água parecia evaporar quando tocava seu corpo, tamanha a tensão que ele estava passando. Aos poucos foi se acalmando e relaxando à medida que a água caía sobre seu corpo. Mas nada o fazia esquecer aquela voz, poderosa e fria. Sua mãe ouviu o barulho do chuveiro e correu assustada para ver o que era:

- Quem está aí?

- Calma mãe, sou eu.

- O que você está fazendo em casa essa hora da tarde? Não são nem quatro da tarde.

- Eu não me senti bem no serviço. Passei mal e fui dispensado.

- Mas o que aconteceu filho? O que você sentiu?

- Uma forte dor no peito e no ombro também. Caí no chão e fiquei paralisado por alguns instantes, não sei por quanto tempo. Só voltei ao normal ao ver a cara assustada da Joana. Acho que essa foi a melhor parte. É, foi muito engraçado! – Uma gargalhada escapou sem culpa nenhuma.

- Deixe-me ver como você está, filho. – Cláudia abriu a porta do box e ficou espantada ao ver o corpo de seu filho.

- O que foi mãe? O que você...

   Sua frase foi interrompida pela mesma visão que estava assustando sua mãe. Daniel tinha uma grande marca roxa no meio do tórax, uma mancha escura como uma grande escoriação. No ombro, uma grande cicatriz que ia do peito até as costas com mais ou menos 25 centímetros de comprimento. E parecia ter sido obra de uma arma ou objeto cortante muito afiado.

- O que são essas marcas filho? Como você se machucou desse jeito? Quem fez isto com você?

Mas Daniel não conseguia responder. As marcas em seu corpo só poderiam ter sido feitas de uma maneira. E esta maneira não era uma opção a se analisar.

- Daniel me responda o que aconteceu? O que você está escondendo de mim?

- Nada, mãe. Eu não sei como estas marcas apareceram. Eu juro. Eu apenas...

- Apenas o quê? Você brigou com alguém? Meu Deus olha só esta cicatriz no seu ombro... está fria! Muito fria!

- Calma, mãe! É só a água do chuveiro... espere... está mesmo muito fria... ó meu Deus, o que aconteceu comigo! – Daniel estava muito assustado com aquilo pois apesar de ser um rapaz “sonhador”, era bem cético e tinha os pés no chão.

- Calma filho, nós vamos resolver isso. Mas precisa me contar o que aconteceu desde o começo. Não esconda nada pois seja o que for estarei do seu lado.

- Mas esse é justamente o problema: não aconteceu nada! Eu acordei, tomei um banho, fui trabalhar, almocei, passei mal e vim embora. Antes de dormir eu não tinha estas marcas. Eu apenas... tive um... sonho.

- O quê? Um sonho? É, pode ser um sonho. Um sonho explicaria a mancha roxa no seu peito. Você pode ter caído da cama ou batido na parede, sei lá. Mas não explicaria esta enorme cicatriz no seu ombro esquerdo. Não mesmo.

- Não, você não entendeu mãe. No sonho eu tive estes ferimentos! No sonho!

- O que você está dizendo filho? Você quer que eu acredite que estes ferimentos foram realmente causados por um sonho?

- Não mãe, não é isso. Eu também não acredito nisso. Mas... eu não sei o que dizer, não sei... – Daniel começa a chorar de desespero e por pensar que talvez poderia estar ficando louco. Sempre tinha visto reportagens sobre pessoas que perdiam a noção da realidade e apareciam em lugares estranhos com marcas no corpo e sem nenhuma lembrança do que lhes tinha acontecido. Somente se lembravam de um sonho. Estas pessoas acabavam enlouquecendo pois não conseguiam achar explicação razoável para o que lhes acontecia. Era algo que continuava sem explicação.

- Calma, Dani, calma meu filho. – Cláudia abraça o rapaz fortemente esperando acalmá-lo para mais tarde poder descobrir o que houve.

- Mãe não quero ficar louco, não quero!

- Tudo vai se resolver, você só precisa descansar um pouco. Por quê você não vai dormir um pouco?

- Dormir? É, acho que é uma boa idéia. – Daniel se anima com a idéia e decide sair logo do chuveiro. Dormir parecia a coisa mais sensata a se fazer.

   Em seu quarto, ele consegue relaxar um pouco. Olha para os lados como se procurasse algo responsável por suas marcas, mas só encontra coisas familiares e a mesma bagunça de sempre. Começou a pensar se aquele papo dos sonhos que sua amiga contou era verdadeira. Na verdade, apesar do susto, Daniel adoraria que seu sonho fosse real. Resolveu deitar e deixar os problemas para mais tarde. Meia hora depois já estava dormindo. Mas antes de cair no sono, ouviu alguém chamando seu nome ao longe. Não, não era seu nome. A voz chamava Gríffon. Foi a última coisa que escutou.

- Gríffon, Gríffon! – Disper chamava seu capitão desesperadamente.

- Calma, meu amigo! Diga-me o que houve?

- Você não se lembra? Olhe o seu estado! – Gríffon olhou para seu corpo e percebeu que sua armadura apresentava uma grande rachadura no ombro esquerdo e no peito um enorme amassado. Seu escudo, ou o que restara dele, jazia a alguns metros do local, totalmente em pedaços. Seu elmo havia desaparecido, mas segundo seus amigos não sobrara muito dele.

- Meu Deus, eu me lembro! Haiael! Onde ele está?

- Achamos que ele foi levado pelos Urumann para uma fortaleza em outra dimensão, talvez na dimensão dos Messara.

- Impossível. Somente o poder de Haiael poderia nos reunir aqui! E como vocês me chamaram? Eu escutei o chamado de vocês, por sinal muito forte!

- De que chamado você está falando? Nós simplesmente estamos aqui. Estamos aqui esperando por você para decidir o que fazer, mas não tínhamos como chamá-lo apesar de ser o nosso desejo.

- Bom meus caros amigos, vejo que o meu grupo inteiro está aqui. E pelo visto vamos precisar de todos. As notícias não são boas, devido aos fatos. Pelo que pude perceber, Haiael ainda está aqui. Senão nós não estaríamos. Referente aos chamados que escutei, alguém os enviou e se não foram vocês desejo saber quem foi. Toda vez que escutei o chamado minha cicatriz e meu peito arderam. Acho que os responsáveis por isto são os mesmos que levaram nosso amigo e comandante. Sendo assim, estaremos indo direto para uma armadilha. O que me dizem?

- Estamos com você, Gríffon! – disse Riant, seguido por Disper, Morad e Menar. Os demais ficaram um tanto apreensivos mas concordaram em partir. Ao total eram vinte guerreiros Arkiax.

- Então meus amigos, vamos seguir as trilhas de nossos inimigos. Se minha teoria estiver correta, não vai ser difícil encontrá-los. Portanto assim que chegarmos ao local, bolarei um plano de ataque para tentar aumentar um pouco nossas chances que, sinto em dizer, são poucas. Alguns de nós já viram o poder deles e sabemos que não será fácil. Se não fosse Haiael, estaríamos todos mortos.

- Sim, mas desta vez estamos em maior número, Gríffon.

- Nossa quantidade pode não ser suficiente para enfrentar o poder deles, Disper. Mas se eles querem uma armadilha é o que vão ter.

   Então Gríffon providenciou uma espada com um de seus guerreiros para substituir sua poderosa lança. Sabia que a arma não estava à altura do presente do anjo, mas para o que ele pretendia fazer era suficiente. Podia perceber a gravidade da situação nos olhos dos mais novos. Algo devia ser feito. Levantou a espada em direção aos céus e clamou com voz forte:

- Levantem-se Arkiax, chegou a hora de mais uma batalha, talvez a mais importante de nossas vidas. O anjo caído finalmente se mostrou através de seus sanguinários filhos, os Urumann. No momento de nossa batalha eram apenas quatro anjos negros. Um deles eu abati do outro lado do portal negro. Sim, eles são poderosos mas podem ser destruídos! Mas talvez essa não seja a hora de um confronto direto com eles. Hoje vamos mostrar que não somos somente grandes guerreiros com poderosas armas. Também somos inteligentes e estrategistas! Nossa luta hoje será mais mental do que física, pois teremos de vencer a arrogância e o poder deles com esperteza e coragem. Vamos lá, meus guerreiros, sigam seu capitão! Pela honra! Por Haiael!

   Seu brado ecoou forte no Vale Bator dando coragem e esperança à seus guerreiros, mesmo àqueles que sabiam estar indo para uma morte certa. Mas era algo que precisava ser feito, não podiam simplesmente abandonar seu comandante.
   E assim partiram, com esperança nos olhos, firmeza no coração e mãos ansiosas pelo contato com o metal das armas. Rapidamente atingiram a planície e um deles conseguiu identificar os primeiros rastros dos Urumann. Eles apontavam para a vila dos Bator. Gríffon ajoelhou cuidadosamente sobre a marca no chão, levantou seus olhos e disse em voz baixa:

- Que a caçada comece!